Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 25.05.2009 25.05.2009

A arte do anonimato

“Se você deseja escrever um livro, um artigo, um relatório de trabalho, um discurso, uma conferência, mas não tem tempo, nem prática, nem paciência para escrever; a solução é contratar um bom ghost writer”. Esta poderia ser uma das possíveis sinopses do longa-metragem Budapeste, adaptação homônima do livro de Chico Buarque, dirigido por Walter Carvalho, que estreou nos cinema no dia 22 de maio. Ghost writer, ou escritor fantasma, em português, é a expressão inglesa que define o profissional que presta serviços de redação de textos a outras pessoas. Ser ghost writer é brilhar à sombra.O grande tema do filme é a arte do anonimato. O artista anônimo que se despe de todo e qualquer tipo de vaidade para deixar gravado na obra encomendada as características do contratante. O que mais, além do dinheiro, leva um personagem como José Costa, interpretado por Leonardo Medeiros, a se dedicar à tão ingrata profissão? As únicas pistas possíveis, ao longo do filme, estão em seus conflitos éticos e estéticos, os quais se presentificam em sonhos, alucinações e pesadelos. José Costa, ou Zsoze Kósta, conforme a grafia húngara, encarna a idéia do duplo que os artistas trazem dentro de si. Vem de uma linhagem de escritores fantasmas famosos como Cyrano de Bergerac e Anaïs Nin. O recurso do escritor fantasma, aliás, sempre foi e continua sendo muito utilizado no meio político. Vários presidentes tiveram os seus fantasmas: Lourival Fontes, por exemplo, escreveu os principais discursos de Getulio Vargas, embora a carta-testamento seja de autoria do jornalista João Maciel. Augusto Frederico Schmidt encarnou Juscelino Kubitschek. Eduardo Graeff, o de Fernando Henrique Cardoso. Até Obama tem o seu: Jon Favreau, um jovem fantasma de apenas 27 anos.

A estátua esquartejada de Lênin em proporções colossais descendo o Rio Danúbio é um dos momentos mais belos e impactantes do filme. Inclusive quando a câmera fica de cabeça pra baixo para vê-lo passar por debaixo da ponte. Será uma piada ou uma referência ao filme Adeus Lenin!, cujo personagem reescreve anonimamente a história de seu país para satisfazer os ideais políticos de sua mãe? Se for uma piada, não funciona. Se for uma referência, muito menos. De qualquer forma não resisti à curiosidade de perguntar aos membros da equipe se aquela colossal estátua era cenográfica. Como saber? Vai que estão filmando o Rio Danúbio e, de repente, uma enorme barcaça passa transportando o único objeto que poderia tão bem definir a atual Hungria? Por que não aproveitar o acaso? O diretor, aliás, se permite certos maneirismos que, se não comprometem a narrativa do filme, em nada acrescentam. Chico Buarque, por exemplo, aparecendo em close num lançamento editorial, é uma homenagem simpática, mas desnecessária. A adaptação do romance já é, em si, um gesto reverencioso. É possível perceber que o diretor, com isso, brincava com a idéia dos duplos, pois, naquele momento, Chico Buarque encarnava o próprio ghost writer de seu personagem Zsoze Kósta.As cenas de apredizagem da língua húngara são poucos inspiradas, embora necessárias como ponto de transição do personagem. As cenas de sexo são bálsamos. Rendem homenagens ao Livro de cabeceira, de Peter Grenaway. É um filme, claro, de fotógrafos. Peca por alguns clichês: poucos foram os autores que conseguiram retratar outras culturas sem cair na armadilha do lugar-comum e dos estereótipos. Para tanto, seria preciso ter um espírito universal como o de Bertolt Brecht, dramaturgo alemão que construiu sua obra abordando, entre outras coisas, culturas diferentes, sem jamais deixar de atingir o seu âmago e as suas peculiaridades. E ainda bem que Brecht veio à tona, pois, resumindo, diria que Budapeste é um filme com olhar estrangeiro e que se permite certos distanciamentos: quebra da ilusão por artifícios cênicos, tais como o personagem fazer comentários para a câmera ou Chico Buarque surgir em carne e osso comprando o seu próprio livro, ou melhor, o livro escrito pelo seu personagem. Esse é o jogo.
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