Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.02.2013 22.02.2013

A arte de escrever a quatro mãos

Por André Bernardo
 
Já virou lugar-comum entre os escritores dizer que literatura é um ato solitário. José Roberto Torero, 49, e Marcus Aurelius Pimenta, 51, parecem discordar disso. Para eles, literatura é um ato solidário. Amigos desde 1986, quando trabalharam como revisores na revista “Química e Derivados”, escrevem juntos desde 1997. O primeiro livro, Terra Papagalli, já trazia dois traços marcantes: revisão histórica e humor inteligente. De lá para cá, foram mais 15 títulos, o que dá uma média de um por ano.
 
“O sucesso da dupla vem do fato de sermos uma dupla. Isso faz com que cada livro tenha dois severos revisores e fornecedores de ideias”, teoriza Torero. “Escrever em dupla deixa a nossa produção mais constante. Desde que começamos a escrever em dupla, trabalhamos todos os dias, inclusive sábados e domingos”, completa. Só este ano, já lançaram três novos títulos: o adulto Nove Contra o 9 e os infantojuvenis Os 33 Porquinhos e Kubno e Velva.
 
CADA UM DOS AUTORES FAZ UM POUCO DE TUDO: DA ESCALETA À REVISÃO
Há 16 anos, a dupla segue o mesmo método de trabalho. “Em primeiro lugar, bolamos a história. Mas é claro que, às vezes, mudamos de ideia no meio do livro”, avisa Torero. O passo seguinte é escrever a escaleta. Nela, os dois definem o que vai acontecer em cada capítulo. “Debatemos a escaleta antes de escrever e mesmo durante o processo de escrita. O Skype é nosso companheiro diário”, brinca Pimenta. 
 
Discutida a escaleta, Pimenta escreve a primeira versão, Torero a segunda, e assim por diante. Até os dois concordarem que a obra está pronta para seguir em frente. Na fase seguinte, a dupla se reúne para ler o texto em voz alta e, se for o caso, reescrevê-lo a quatro mãos. “Às vezes, é só burilar o texto. Outras vezes, temos que mudar tudo e voltar à fase da escaleta”, entrega Torero. Segundo Pimenta, só a última fase leva, em média, cerca de um ano.
 
Os dois têm lá as suas manias ao escrever. Torero gosta de trabalhar num quarto pequeno, sem vista da janela. “Gosto de começar a escrever às sete da manhã. E quando dou uma travada, lavo louça ou pago uma conta no banco”, exemplifica. Já Pimenta garante não ter nenhum ritual em particular. “Só as coisas de costume, como acender velas pretas e beber um gole de sangue do bode sacrificado”, brinca.
 
AS AFINIDADES DA DUPLA INCLUEM MACHADO DE ASSIS, HQS E FUTEBOL
Com ou sem manias, o trabalho costuma fluir bem. Afinal, são muitas as afinidades: Machado de Assis, HQs e futebol. Por pouco, o primeiro trabalho da dupla não foi uma HQ intitulada “Casar é…” (uma paródia às tirinhas de jornal “Amar é…”, criadas pelo casal Robert e Kim Casali). “Não foi considerada digna de publicação”, admite Pimenta. Em 1991, a dupla chegou a ganhar um prêmio pelo espetáculo Sic Transit Gloria Dei. Sim, o talento da dupla não se restringe à literatura.
 
Juntos, já escreveram duas peças, Romeu & Julieta – Segunda Parte e Omelete; dois filmes, O Contador de Histórias e A Igreja do Diabo; e uma série de TV, (fdp). Nela, a dupla acompanha a vida de um juiz de futebol, que sonha em apitar uma final de Copa do Mundo. O futebol é tema também de Nove Contra o 9. Em tom de romance policial, os dois narram a morte de Beleza, o maior ídolo do Banânia Esporte Clube, assassinado após marcar seu milésimo gol.
 
TORERO E PIMENTA JÁ LANÇARAM DUAS COLEÇÕES INFANTOJUVENIS
Em 2004, a dupla começou a escrever para o público infantil. A série “História Literária para Crianças” rendeu três volumes: Nuno Descobre o Brasil, Nonô Descobre o Espelho e Naná Descobre o Céu. Em 2010, outra coleção: “Fábrica de Fábulas”. “De vez em quando, especulamos coisas do tipo: ‘E se Romeu e Julieta tivessem se casado? E se Pete Best tivesse continuado nos Beatles?’. Esse tipo de digressão estimula a criatividade e abre perspectivas de leitura”, pondera Pimenta.
 
Até o momento, já foram lançados cinco volumes: Chapeuzinhos Coloridos, O Patinho Feio Que Não Era Patinho Nem Feio, Branca de Neve e as Sete Versões, Os Oito Pares de Sapatos da Cinderela e Os 33 Porquinhos. Em breve, sairão mais dois: Joões e Marias e outro, ainda sem título. “A trama é sobre a insatisfação dos príncipes que só aparecem no final dos contos, dão um beijo nas donzelas e vivem felizes para sempre. Eles querem ser lembrados como personagens, e não como um apêndice da história das princesas”, adianta Pimenta.
 
Apesar do sucesso da parceria, Torero e Pimenta não abrem mão de trabalharem sozinhos. Até o final do ano, o autor de O Chalaça, que levou o Jabuti em 1995, lança uma obra sobre papas. “Por ser ateu, sempre me interessei pela história da Igreja. Ou, talvez, eu tenha me tornado ateu por me interessar pela história da Igreja”, brinca. A recente renúncia de Bento XVI deu ao trabalho um desfecho inesperado. “Terei que reescrever o final do livro, que já estava quase pronto”.
 
Capa do livro Nove Contra o 9 
 
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