Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.09.2011 30.09.2011

8ª Bienal do Mercosul em Porto Alegre: um evento que acontece pela cidade

Por Andréia Silva
Na foto ao lado, a obra Documento para Robert Flagerty de Eugenio Dittborn
 
Uma bienal de arte que não acontece dentro de um único espaço. Ao contrário, ela se expande, ocupa territórios locais e explora a relação das pessoas com espaços já familiares no dia a dia. Essa é a Bienal do Mercosul, que fica até novembro em Porto Alegre e outras dez cidades gaúchas, com o tema Ensaios de Geopoética.
 
Em sua 8ª edição, o evento homenageia o artista chileno Eugenio Dittborn e vem mais internacional, com participação de 105 artistas – sendo 38 brasileiros – de 31 países (não só latinos).
 
Quando se fala de formato, a Bienal do Mercosul traz esse ano uma proposta aberta: acontece pela cidade, com a participação da comunidade, a colaboração com centros culturais e artistas locais, e espaço para novos artistas e produção local.
 
“Nós acreditamos que uma Bienal pode ser mais do que a consagração do já conhecido e precisa ter uma conexão íntima com o lugar onde acontece”, diz o curador Cauê Alves.
 
A garagem dos livros, palco de intervenção da Bienal
 
Esse “acontecer pela cidade” é bem explorado na mostra “Cidade Não Vista”, uma das cinco do evento, que leva a exposição para nove locais que despertam interesse pela sua localização, arquitetura, história ou outra curiosidade. Um deles é o sebo Garagem dos Livros, que ganhou uma intervenção da gaúcha Elida Tessler.
 
O sebo também é uma garagem onde o carro do dono, seu João, é guardado todas as noites, junto ao acervo dos livros. “Minha intenção era justamente ativar o espaço, colocando os seus elementos constituintes em órbita”, diz Elida. Apesar de morar em Porto Alegre, ela nunca tinha ido ao local e desde o início quis trabalhar partindo do que já existia para recriá-lo.
 
A artista reproduziu a classificação dos livros de Seu João em plaquinhas de acrílico branco com letras pretas impressas e colou-as nos lugares escolhidos por ele, além de adicionar outros 101 nomes tirados dos escritos de Donaldo Schüler, que também serviram de base para a criação de uma enciclopédia inédita, IST ORBITA, especialmente para a intervenção no sebo.
 
Donaldo e Seu João na Garagem dos livros
 
Explorando Rio Grande do Sul
 
Duas outras mostras dão um tom mais explorador à questão territorial e colocam a sede da Bienal como ponto de partida para as obras. “Cadernos de Viagem” traz o trabalho de nove artistas de diferentes nacionalidades que documentaram em desenho, fotografia, vídeo, objetos, anotações, performances e instalações sua viagem por cidades do Rio Grande do Sul.
 
Já em “Além Fronteiras”, outros nove artistas mostram sua visão critica e poética da paisagem do sul do Brasil e de países como Argentina e Uruguai. Um dos destaques é Cao Guimarães. Mais conhecido do público pelos seus filmes, o mais recente Ex-Isto, aqui ele expõe seus registros em foto e vídeo da viagem pela fronteira entre Brasil e Uruguai, quando visitou as cidades de Tacuarembó, Melo, Salto, Alegrete, São Gabriel e Rio Pardo. 
 
Questionando territórios
 
Outras obras e trabalhos apresentados abordam questões mais políticas em relação ao território, como é o caso do trabalho de Paulo Climachausta, “Complexo do Alemão”, de 2007, na exposição “Geopoéticas”. Climachausta usa uma bandeira do Brasil – em vez de Ordem e Progresso, lê-se Complexo do Alemão – dois passaportes e recortes do território da região com base no Google Maps, para abordar a questão da ocupação do morro carioca pela polícia.
 
Complexo do Alemão
 
“Na época, me chamou a atenção o número de mortos nos confrontos, em dois anos, próximo ao de uma guerra civil. A impenetrabibildade do Complexo e a ineficiência das autoridades em retomarem o controle administrativo do local me fizeram pensar em um trabalho sobre a independência deste território dentro da federação brasileira”, conta.
 
Outro brasileiro presente na mostra é Marcius Galan, com o trabalho “Uma Linha”. Elaborado com taxinhas – entre 15 e 20 mil – típicas de marcações de mapas, o trabalho se desdobra para além da linha que se esboça, numa soma finita de pontos.
 
Uma linha de Marcius Galan
“Uma das intenções é desestabilizar a noção de limite, uma vez que os elementos estão alinhados, mas não obedecem a nenhuma demarcação de fronteira ou a representação cartográfica. Minha investigação, de um modo geral, tenta colocar em dúvida algumas noções preestabelecidas e às vezes um desconforto relacionado a percepção”, diz Galan.
 
Esse e outros trabalhos, você confere até 15 de novembro, em Porto Alegre. Mais informações no site da Bienal

 

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