Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 12.06.2009 12.06.2009

40 anos de bom samba

Enquanto seleciona repertório para um álbum de inéditas (o primeiro desde Brasileira da Gema, de 1996), Beth Carvalho festeja 40 anos de carreira fonográfica em 2009. Foi em 1969 que a extinta gravadora Odeon lançou seu primeiro LP, Andança, reeditado recentemente pela EMI Music em série econômica.  Bem que a indústria fonográfica poderia aproveitar a data redonda para repor em catálogo todos os títulos da discografia de Beth, uma das mais coerentes da produção fonográfica brasileira. A intérprete antecipou nomes e tendências que norteariam o mundo do samba. Sua estréia na gravadora RCA em 1976, com o álbum Mundo Melhor, trouxe – somente para citar um exemplo – a gravação mais popular de As Rosas Não Falam, obra-prima do mestre Cartola (1908 – 1980), que lançara tardiamente seu primeiro LP dois anos antes. Em 1978, no antológico De Pé no Chão, Beth revelou a turma do Cacique de Ramos e apresentou uma nova forma de fazer samba que iria dominar o mercado na década de 80. É nesse disco que há a gravação original de Vou Festejar, hit até hoje obrigatório nos shows da cantora.


A propósito, os discos gravados por Beth na RCA representam sua fase de maior popularidade. A artista vinha de bons álbuns gravados em companhias menores, como Canto por um Novo Dia (1973), Pra seu Governo (1974) e Pandeiro e Viola (1975) – trilogia seminal na qual a intérprete já expressou sua opção definitiva pelo samba. Mas foi a partir de seu ingresso na RCA que seus discos popularizaram sua voz em todo o Brasil e sedimentaram sua carreira. Nos Botequins da Vida (1977) emplacou sucessos como Saco de Feijão, exemplo da habilidade da cantora de abordar problemas sociais em sua obra com leveza, sem carregar nas tintas. Aliás,  quem gosta de samba e tem mais de 35 anos certamente curtiu Virada, hino político que sintetizou os anseios dos brasileiros para dar o troco no regime que o oprimira na década de 70. O ano era 1981 e Beth lançava Na Fonte, um de seus melhores discos, o que trouxe inclusive uma inusitada incursão da intérprete pelo universo sertanejo na faixa Alpendre da Saudade. No ano seguinte, Traço de União (1982) cumpriu o que prometia seu título e juntou compositores que nunca haviam trabalhado juntos. Casos de Caetano Veloso e Ivone Lara, autores de Força da Imaginação, o samba mais conhecido do álbum. Aos carnavalescos Suor no Rosto (1983) e Coração Feliz (1984), seguiu-se outro álbum renovador, Das Bênçãos que Virão com os Novos Amanhãs (1985), disco em que Beth pisou no terreiro baiano na faixa O Encanto do Gantois. Um distante prenúncio do CD e DVD Beth Carvalho Canta o Samba da Bahia (2007), que, por sua vez, remetem ao CD Beth Carvalho Canta o Samba de São Paulo (1993), trabalho pioneiro na tentativa de quebra das barreiras bairristas que dividem e conceituam os sambistas por sua posição geográfica.


Se Beth (1986) é sustentado pelos alicerces do pagode que dominou o Brasil naquele ano, Alma do Brasil (1988) – álbum que marcou a estréia de Beth na companhia hoje denominada Universal Music – se fez ouvir pelo romantismo de Saigon. Saudades da Guanabara (1989) e Intérprete (1991) completam a feliz trilogia que marcou a primeira passagem de Beth por essa gravadora. Discos infelizmente fora de catálogo. Nos últimos anos, Beth Carvalho vem se dedicando a uma série de registros ao vivo de shows. Mas seu esperado álbum de inéditas já começa a ser gestado e, pelo histórico da artista, tem tudo para ser tão importante com seus anteriores álbuns de estúdio, referências para quem não é ruim da cabeça nem doente do pé.

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