Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 27.01.2010 27.01.2010

365 CANÇÕES

Em tempos de MP3, há quem dispense o shuffle para ouvir música no rádio. Diferente dos moderninhos, o jornalista Leonardo Davino mergulha no universo da Música Popular Brasileira através das ondas do rádio, analisando letra e música.

Brincando com o acaso, ele idealizou o projeto/blog 365 Canções, um espaço “para fazer comentários (breves e leves)” sobre a primeira canção que ouvir no dia. Sintonizado na MPB FM (90,3), Davino faz a contagem regressiva de 2010 ao som de poetas da canção como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil.

No blog, cada post está relacionado à letra de uma música e, às vezes, a um vídeo com a interpretação do cantor. Pode ser um trecho do histórico show do Secos e Molhados nos anos 70. Ou, um clipe do Lenine. Tudo depende do acaso.

Paraibano radicado no Rio de Janeiro (ou “parioca”, como gosta de dizer), Leonardo Davino é Mestre Literatura Brasileira com Pesquisa sobre Canção e Teoria da Literatura.  E, ainda, possui uma pesquisa sobre a obra de Caetano Veloso.

365 Canções, sem dúvidas, pode se tornar um belo livro.

Ouça:

Você ouve rádio diariamente?

Leonardo Davino – Sim, tanto para ouvir as “”novidades””, quanto para perceber como algumas canções permanecem enquanto outras somem. Seja pelo celular, no aparelho de som de casa, ou no micro (na maioria das vezes), quando não tenho um disco específico para curtir, ligo o rádio e me deixo à sorte.

Como surgiu a idéia do projeto 365 Canções? É uma referência ao livro 31 Canções, de Nick Hornby?

Davino – Não há nenhuma referência ao livro de Nick Hornby. No caso dele, ao que me parece, há uma questão de gosto, na escolha das canções. No caso do meu projeto 365 canções o que acontece é a total aleatoriedade. Mas é engraçado você citar o Hornby, pois comecei a ler Frenesi polissibálico, outros textos me desviaram dele, e não consegui terminar.

Um leitor do projeto perguntou se haveria (também) alguma referência ao filme Julia & Julie. Respondi que não pois, mesmo tendo o conhecimento das questões do filme, eu ainda não o havia assistido na época de montar o projeto. 
De fato, o desejo surgiu exatamente da vontade de me testar diante da surpresa das canções que surgirem. Sair da zona de conforto na qual, muitas vezes, nos colocamos e refletir sobre peças que, talvez, pela questão do gosto, eu não fosse parar para pensar.

Como as tecnologias interferem no mercado musical? É uma vantagem para o público ou o artista?

Davino – Hoje não se precisa mais comprar um disco para curtir uma canção, a não ser os colecionadores e os fãs. Basta comprar apenas a música de desejo e pronto: cada um monta sua trilha sonora particular. 
Paralelo a isso, sem dúvidas, a relação entre o público e o artista ficou muito mais fácil, no sentido de mais próxima e acessível. As possibilidades são enormes. Assim como as possibilidades de feitura e de divulgação de um trabalho. E, acredito, em um futuro próximo, a renda do artista virá das apresentações e dos produtos paralelos ao disco propriamente dito.

Porém, não saberia precisar o nível de vantagem ou desvantagem para cada parte envolvida, apesar de pensar que o público tem certos ganhos. Sei que há mudanças e as gravadoras estão se mobilizando.

Por que pesquisar a Música Popular Brasileira?

Davino – Pela riqueza absurda dos nossos cancionistas. Há um manancial incomensurável para ser estudado. Além disso, desde a graduação em Letras na UFPB, quando fiz parte de um Projeto de Pesquisa chamado O neobarroco em Caetano Veloso, orientado pelo competente professor Dr. Amador Ribeiro Neto, descobri que meu objeto seria a canção.

Importa dizer ainda que sou do interior da Paraíba, cresci ouvindo os desafios dos repentistas no rádio da minha avó paterna. Sempre fui curioso para entender o malabarismo do texto com a melodia. Mais tarde entrei na faculdade e tive o privilégio de fazer parte dessa pesquisa.

Você é mestre em Literatura Brasileira, com pesquisa sobre Canção e Teoria da Literatura. Sua especialização é em Caetano Veloso? Por quê?

Davino – Sim, pesquiso a obra de Caetano Veloso desde a graduação. A obra de Caetano, com seu projeto tropicalista e por apresentar ao ouvinte-leitor personagens e temas híbridos e abertos às leituras diversas, me oferece a possibilidade de manter o “”olho livre””, como sugeria Oswald de Andrade. Dito de um modo geral: encontro na obra de Caetano referências de vanguarda e “”cafona””, o que é um forte estimulante para mim, enquanto pesquisador, pois não me deixa cair em preconceitos e/ou academicismos.

Você acredita nas profecias sobre o fim da canção?

Davino – Acredito, como falei, nas mudanças no modo de feitura e de acesso à canção. Aliás, acredito tanto nisso que pesquiso canção e meu projeto de doutorado tematiza exatamente a produção de canção na era da mobilidade. Penso junto com o semioticista Luiz Tatit, ou seja, enquanto existir gente falando, haverá canção. Obviamente, os temas e as estruturas mudam junto com o tempo que passa, mas a canção não morre.
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